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cinco notas, sobre o quotidiano e o discurso ritual de Carlos Nogueira

por FERNANDO DE AZEVEDO

A cada um os seus dias cinzentos, o seu dia e a sua noite, o seu fruto vermelho do desejo. A cada um pertence um quotidiano e o seu discurso próprio, o comum e a mudança. Carlos Nogueira, que é senhor da natureza oculta destes humanos mistérios enviou, um dia, para vários destinos, os lápis com que se pintam, cinzentas, as horas que perfazem os dias sem cor de cada um. E logo, num Ocidente luminoso, aconteceu descolorir-se a sua luz e nitidez pelos muitos gestos que, simultaneamente, recobriram, nas muitas folhas de papel, a névoa e a melancolia, com traços, palavras, ou manchas opacas como cinza vertical.
O quotidiano é ritualizável, descobriu-se então. E preciso porém, que o seu cinzento anónimo, indistinto, em que tudo se confunde e nada é, se personalize através de um mesmo acto, tido e começado por todos como proposta de encontro comum. Ao cumprir-se neste acto, inicia-se cada um no ritual colectivo do quotidiano. Só que cada um, assumindo-o, o modifica e inicia, por sua vez, as vozes e os seus sinais de mudança. O ritual é, assim, tanto a persistência vivencial de uma origem, quanto "este mudar-se cada dia", em nós, de que fala o Poeta.

Se quisesse figurar Carlos Nogueira, veria nele quer a convicção exaltada do oficiante, quer a inteligência operativa do prestidigitador. E, entre uma e outra destas duas opostas práticas, um estado de inocência, próprio só de quem, ao propiciar o culto, se maravilha no gesto e no sentido elíptico das coisas. Alguém que interroga o quotidiano (nele se interrogando) não para o verificar como tal, mas, precisamente para lhe interromper o fluir vazio, sem acontecer e sem surpresa. Alguém, enfim, que invoca os hábitos mais simples e, na invocação, os converte em materiais lúdicos para inesperados e intemporais cerimónias. Ou ainda, – e de um modo um pouco inverso e sem que se abrande a contagiante euforia do cerimonial – venha mostrar a descodificação do inacessível, do culturalmente distante, tornando-os coisas verdadeiras e existentes nas pessoas, coisas envolventes e comunicativas.
Fê-lo Carlos Nogueira, assim, com um poema de amor de Camões, como de outro modo o fez com uma mão-cheia de cerejas.
"Todo o mundo é composto de mudança", mais do que o verso admirável do soneto célebre de Camões, será para Carlos Nogueira, supomos, uma epígrafe do seu entendimento real e metafórico da vida. A partir desse verso, do seu profundo e enigmático sentido, em homenagem ao Poeta, preparou uma instalação que decorreu na II Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira, uma vila bem ao norte minhoto de Portugal. Muitas eram as obras de outros artistas presentes, muitas as salas, muitos os percursos possíveis, muitas as possíveis escolhas para quem passava e via.
Nas paredes brancas, as palavras de Camões conduziam, porém, como anti-slogans, a cada um, da mobilidade do mundo à mobilidade de si, mais do que qualquer outra obra que, mesmo pelo seu movimento, descobrisse como as situações variam e tudo muda de um ponto a outro do percorrido espaço, "tomando sempre novas qualidades", como diz o Poeta. De intervenção em intervenção no corpo dos versos, Carlos Nogueira somava-lhes a sua própria vivência, e o chão, "que já coberto foi de neve fria" tornava-se um fascinante campo de flores, pelas suas mãos artesanalmente modeladas, flores de papel, maravilhosamente brancas e puras, um anúncio de mudança, uma transfiguração do amor no espaço de uma leitura.
Visualizando o poema como um acto e como uma íntima e exposta experiência, o artista ritualizou nele a eclosão de um comportamento lúdico e fez vibrar um sinal colectivo de emoção, de participação e de "mudança" em cada um. "Todo o mundo", sem perguntar porquê, viu naquele chão de brancas flores o "chão de verde manto" do Poeta e o chão de verde manto que por fora dele era o piso natural dos seus passos e horizonte quotidiano dos seus olhos.
Uma a uma, cada moça que por ali passou colheu então uma flor e, como se fosse a iniciação de um noivado, a festa começou.

Já se vê que o operador estético que é Carlos Nogueira procede entre o mágico descobridor de coisas vistas e o oráculo de semânticas que as realidades escondem. Nisso procede como poeta, pela escrita, pela pintura, pela aproximação que faz dos objectos num espaço contraditório e por isso mesmo insolitamente dialogante. A sua relação com os seres, as coisas, a natureza, o infinito do visualizável e do não visualizável, tem a lucidez insubstituível da sensibilidade desperta. "Não colecciono nada, junto tudo..." escreveu na página de um diário. As suas folhas de diário são os sinais do quotidiano precipitado nas fronteiras do imaginário em que tudo parece reunir-se por uma ordem invisível e que ao mesmo tempo agisse, naturalmente, num acontecer sem determinação apreensível.
Uma palavra riscada, outra que se lhe sobrepõe ou acrescenta o sentido, uma mancha de cor num pedaço de cartão usado esgrafitada como um velho muro de memórias abandonadas, as linhas do papel, suporte rítmico e desafio da escrita, são os écrans da sua interioridade: conquistas, despojos, reflexões, memórias, ímpetos, invocações de amores, que são, por fim, o dia a dia minucioso e intemporal do projecto de si mesmo.

Todos conhecemos o sabor das cerejas, o seu gosto vermelho de adiantada primavera. Sabemo-lo, acaso, porém, no tempo das chuvas e do frio, quando são desejo e esperança? Saberemos tudo desse pequeno fruto que, tal como as palavras, nunca satisfaz tanto quanto se quer? Ignoramos, talvez, que, fruto humilde da parábola, congrega os homens no ritual da mesa, é cor e gosto macio de silvestres licores e que da sua conventual e doce manipulação ainda há quem escreva, hoje, como ela deve ser feita.
Disso tudo se lembrou uma vez, também, Carlos Nogueira. Dessa prometida primavera, num dia de inverno, uma mesa posta para os presentes, outra igualmente posta para os ausentes. À volta, os seus diários, escritos, pintados, ditos, e um título: conjunto de mesa e pintura a condizer (ou a primeira fruta com as primeiras chuvas) e outros fragmentos de um discurso sobre o comum e o quotidiano.
Uma vez mais, o quotidiano, o acto comum, se ritualizaram na transcendência do seu próprio significar. A dimensão do tempo, em cada um, ter-se-á medido na memória saboreada de um fruto, no branco do linho, das loiças e, sobretudo, na mesa posta em que alguém não estava, (estivera, voltaria?), nesse sentimento da ausência contrastante, nessa passagem súbita do dia para a noite, no romance que a ausência secretamente nos transmite. Nas folhas do diário, alinhadas rigorosamente como desenhos na parede, não sei se a palavra amor estaria escrita (não está também escrita exactamente, lembro-me, no soneto de Camões). Mas, pergunto-me, necessitará escrevê-la, desenhá-la exactamente como slogan fruste, Carlos Nogueira, quando, rompendo os cinzentos quotidianos a entrevê com a sua carga real e metafórica, a revela de dentro da sua interioridade e, no acto de "juntar tudo" a oferece em dádiva no sonho e na luminosidade aceite de todos os instantes?

Agosto de 1981

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